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sexta-feira, 17 de maio de 2013





DOGVILLE


O Ser Humano deve buscar, antes de tudo, sua emancipação. A princípio pela educação, que abre portas, toca os corações e permite que as pedras do caminho possam permitir desvios e saltos. A segunda grande jornada, a meu ver, é realizada com a busca do conhecimento – um conhecimento que surge ou deve ser forçado a emergir juntamente com a curiosidade. Uma curiosidade de saber o que se passa no mundo ao seu redor, na mente das pessoas que faz ou fará parte do seu convívio, direta ou indiretamente, e o maior auxílio que pode vir ao encontro deste Hércules são os livros, a maneira mais rápida, embora árdua de adiantar-se aos acontecimentos e que conciliados ao tempo e aos relacionamentos interpessoais produz a sabedoria. A independência financeira vem automaticamente após estas fases e, embora digam que dinheiro não traz felicidade, não vivemos na antiga União Soviética, Cuba, e felizmente na Coréia. É a partir dele que conseguimos a maior de todas as emancipações que é a dos Outros, que como diz Sartre “é o inferno”. Com ele podemos adquirir os bens de consumo tão valorizados no mundo capitalista, podemos nos impor enquanto seres humanos dignos de respeito, e principalmente, podemos escolher nossos caminhos sem estar à mercê dos desmandos daqueles que dispõe da famosa ajuda católica – aquela em que as boas obras são apenas um meio para a obtenção da vida celestial, ou instrumento de barganha com seu deus. A emancipação intelectual passa a ser uma forma de sofrimento, fazendo uma analogia com Édipo, mas o único meio de sobreviver entre os lobos.

Polansky.   

terça-feira, 30 de abril de 2013


Reflexos de Nietzsche





Um filósofo à frente de seu tempo, vivendo num período de hipocrisia, talvez tão antiga quanto a própria humanidade. Este texto que escrevo sobre o pensamento de Nietzsche (1844 – 1900) nada tem a ver com a questão da pessoalidade de Deus, embora poderia.
Quando ousou afirmar que Deus estava morto colocou em xeque os valores sob os quais sempre viveu, pois seu pai era pastor e o estudo da Bíblia era uma constante no início de sua vida, no entanto, com a maturidade e, desta vez, podendo confrontar sua realidade interna com os valores que a sociedade apresentava pode ir mais além, e sim, arquitetar o pensamento, na contra mão da hipocrisia de sua época e dos séculos vindouros, de que “Deus está morto”.
Voltaire (1694 – 1778), disse: “Se Deus não existisse, seria preciso inventá-lo.” Interpretando de forma livre a frase de Voltaire, penso que a existência de Deus veio de encontro ao vazio próprio do ser humano, bem como, à necessidade de algo que refreie o instinto, nada bom, do ser humano, (embora a questão do instinto fique para uma próxima vez).
A morte de Deus é representada a partir dos valores e dessa moralidade que fenece dia após dia, apesar de o Estado ser laico, sua formação é basicamente cristã, pois a história nos mostra que nem sempre a igreja mantivera-se distante das decisões, éditos, leis e principalmente intrincada na alma de quase todos nós. Segundo pesquisas os cristãos, católicos e evangélicos, em 2011 somavam cerca 1,2 bilhões de pessoas.
Se essa troca de valores tomando por bem o que é mal, ou fazendo vista grossa ao que nos cerca, como por exemplo: pessoas sendo queimadas vivas por não ter dinheiro, crianças depositadas em lixeiras ou fossas, cracolândias, onde pessoas se destroem a céu aberto, e acima de tudo e o evento mais claro do que Nietzsche dizia, a supervalorização do capital, que talvez possa estar por trás de tudo que foi elencado acima, pois a vida passou a ter um preço e esse não é inestimável, não vem sendo protegido, varia de poucos centavos a fortunas.
Se esse fato marca a vinda do Cristo ou se isso é apenas mais uma maneira de protelar a qualidade de vida para a morte, a exemplo do reino celestial futurista, não sei, mas que vemos um Deus agonizante ou nos termos de Nietzsche, morto, é fato.
  

sexta-feira, 27 de maio de 2011

ÁRVORE GENEALÓGICA - Luis Fernando Veríssimo

 Mãe, vou casar! 
 - Jura, meu filho?! Estou tão feliz! Quem é a moça? 
 - Não é moça. Vou casar com um moço. O nome dele é Murilo. 
 - Você falou Murilo... Ou foi meu cérebro que sofreu um pequeno surto psicótico? 
 - Eu falei Murilo. Por que, mãe? Tá acontecendo alguma coisa? 
 - Nada, não... Só minha visão que está um pouco turva. E meu coração, que talvez dê uma parada. No mais, tá tudo ótimo. 
 - Se você tiver algum problema em relação a isto, melhor falar logo... 
 - Problema? Problema nenhum. Só pensei que algum dia ia ter uma nora... Ou isso. 
 - Você vai ter uma nora. Só que uma nora... Meio macho. Ou um genro meio fêmea. Resumindo: uma nora quase macho, tendendo a um genro quase fêmea..... 
 - E quando eu vou conhecer o meu. A minha... O Murilo? 
 - Pode chamar ele de Biscoito. É o apelido. 
 - Tá! Biscoito... Já gostei dele... Alguém com esse apelido só pode ser uma pessoa bacana. Quando o Biscoito vem aqui? 
 - Por quê? 
 - Por nada.. Só pra eu poder desacordar seu pai com antecedência. 
 - Você acha que o Papai não vai aceitar? 
 - Claro que vai aceitar! Lógico que vai. Só não sei se ele vai sobreviver... Mas isso também é uma bobagem. Ele morre sabendo que você achou sua cara-metade. E olha que espetáculo: as duas metade com bigode. 
 - Mãe, que besteira... Hoje em dia... Praticamente todos os meus amigos são gays. 
 - Só espero que tenha sobrado algum que não seja... Pra poder apresentar pra tua irmã. 
 - A Bel já tá namorando. 
 - A Bel? Namorando?! Ela não me falou nada... Quem é? 
 - Uma tal de Veruska. 
 - Como? 
 - Veruska... 
 - Ah!, bom! Que susto! Pensei que você tivesse falado Veruska. 
 - Mãe!!!.... 
 - Tá..., tá..., tudo bem... Se vocês são felizes. Só fico triste porque não vou ter um neto... 
 - Por que não? Eu e o Biscoito queremos dois filhos. Eu vou doar os espermatozóides.. E a ex-namorada do Biscoito vai doar os óvulos. 
 - Ex-namorada? O Biscoito tem ex-namorada? 
 - Quando ele era hétero... A Veruska. 
 - Que Veruska? 
 - Namorada da Bel... 
 - "Peraí". A ex-namorada do teu atual namorado... E a atual namorada da tua irmã. Que é minha filha também... Que se chama Bel. É isso? Porque eu me perdi um pouco... 
 - É isso. Pois é... A Veruska doou os óvulos. E nós vamos alugar um útero. 
 - De quem? 
 - Da Bel. 
 - Mas. Logo da Bel?! Quer dizer então... Que a Bel vai gerar um filho teu e do Biscoito. Com o teu espermatozóide e com o óvulo da namorada dela, que é a Veruska. 
 - Isso. 
 - Essa criança, de uma certa forma, vai ser tua filha, filha do Biscoito, filha da Veruska e filha da Bel. 
 - Em termos... 
 - A criança vai ter duas mães: você e o Biscoito. E dois pais: a Veruska e a Bel. 
 - Por aí... 
 - Por outro lado, a Bel..., além de mãe, é tia... Ou tio... Porque é tua irmã. 
 - Exato. E ano que vem vamos ter um segundo filho. Aí o Biscoito é que entra com o espermatozóide. Que dessa vez vai ser gerado no ventre da Veruska... Com o óvulo  da Bel. A gente só vai trocar. 
 - Só trocar, né? Agora o óvulo vai ser da Bel. E o ventre da Veruska.. 
 - Exato! 
 - Agora eu entendi! Agora eu realmente entendi... 
 - Entendeu o quê? 
 - Entendi que é uma espécie de swing dos tempos modernos! 
 - Que swing, mãe?!!.... 
 - É swing, sim! Uma troca de casais... Com os óvulos e os espermatozóides, uma hora no útero de uma, outra hora no útero de outra... 
 - Mas... 
 - Mas uns tomates! Isso é um bacanal de última geração! E pior... Com incesto no meio... 
 - A Bel e a Veruska só vão ajudar na concepção do nosso filho, só isso...
 - Sei!!!... E quando elas quiserem ter filhos... 
 - Nós ajudamos. 
 - Quer saber? No final das contas não entendi mais nada. Não entendi quem vai ser mãe de quem, quem vai ser pai de quem, de quem vai ser o útero, o espermatozóide... A única coisa que eu entendi é que..... 
 - Que...? 
 - Fazer árvore genealógica daqui pra frente... vai ser foda. 


 (Luis Fernando Veríssimo)